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Universidade Federal do Acre

Floristics and Economic Botany of Acre, Brazil
Florística e Botânica Econômica do Acre, Brasil



Aspectos florísticos da bacia do alto Juruá: história botânica, peculiaridades, similaridades e importância para conservação.


Douglas C. Daly

The New York Botanical Garden, Institute of Systematic Botany - Bronx, 10458-5126 - New York, NY - email: ddaly@nybg.org

Marcos Silveira

Universidade Federal do Acre, Departamento de Ciências da Natureza/Parque Zoobotânico - BR 354, km 05 - 69915-900 - Rio Branco, Acre - email: silveira@inbrapenet.com.br

 

Introdução

A Amazônia Ocidental em território brasileiro é caracterizada por rios largos, meandreantes ou trançados, sem uma forma definida, com cursos instáveis, várzeas amplas, terreno relativamente plano ou suavemente ondulado. Em conseqüência dessa proximidade dos Andes, a topografia de uma parte da bacia do alto Juruá foi afetada pelo soerguimento dessa cadeia de montanhas, tornando-se mais acidentada e apresentando morros, rochas, cachoeiras e pequenas montanhas de até 600 m de altitude acima do nível do mar, localizadas no complexo da Serra do Divisor.

O clima é mais úmido que a maior parte da Amazônia brasileira e nesta zona de abundantes chuvas, normalmente não há nenhum mês em que há falta de água no solo; há apenas um estação mais chuvosa e outra menos. Neste sentido assemelha-se mais com os climas super-úmidos do piemonte oriental dos Andes.

A vegetação e a flora da bacia do Alto Juruá apresentam um caráter especial no cenário amazônico, principalmente na Amazônia brasileira, em função dos muitos contrastes, transições entre floras, raridades, e sempre surpresas.

É uma região riquíssima em ambientes distintos: floresta, grota, salão, campina, praia, lago, paredão, e mais. Suas matas são tipo catedral, facil de caminhar, até cacaia com muitos cipós; com subosque aberto até impenetrável e com jardins de sororoca ou pragas de espinhos. O dossel é fechado ou descontínuo, alto ou ralo. O solo varia entre lama tipo tabatinga e areia branca ou pura pedra, de altamente férteis até quase estéreis. Suas águas são comumente barrentas, mas também encontra-se águas pretas e raramente cristalinas. Dependendo da drenagem e da elevação com relação aos níveis atingidos por estas águas, encontra-se lagos, pântanos estacionais e permanentes, terraços baixos (inundados por chuvas fortes), barrancos, terraços altos ou restingas, e montanhas.

Certas facetas abióticas desta região determinam em grande medida os tipos de vegetação observados e a composição da sua flora. Cada ambiente caracteriza-se pela ocorrência de certas formas de vida, e em certas proporções. As matas anãs da encosta e dos topos do morros na Serra do Moa, por exemplo, muitas vezes revelam uma superfície densamente coberta por bromélias com folhas compridas e espinhosas, enquanto a superfície de algumas matas de baixo é dominada por ervas suculentas com folhas grandes (macrófitas) das famílias Araceae ou Alismataceae. Os paredões dos canyons do Rio Moa são dominados por plantas arborescentes sem ou quase sem ramificações, principalmente palmeiras mas também incluindo samambaias, imbaúbas, e uma espécie andina bastante comum, a Cespedesia.

Cada um dos ambientes também pode ser caracterizado por sua composição florística e suas afinidades florísticas. A composição florística ajuda a diferenciá-lo de outros ambientes na região. As afinidades florísticas indicam vínculos com outras regiões, por causa de ambientes parecidos (às vezes bem distantes) e/ou porque evidentemente compartilham fases das suas histórias.

Afinidades são indicadas por distribuições de organismos, e os padrões de distribuições podem ser demostrados por espécies, gêneros, ou até formas de vida. Às vezes um grupo taxonômico e uma forma de vida coincidem, por exemplo os líquens superficiais que ocorrem nas campinas ou as bromélias terrestres das matas anãs das serras. A existência de espécies estreitamente restritas a determinadas áreas, ao que chamamos de endemismo, podem indicar ambientes únicos e/ou isolados por muito tempo, enquanto outros endemismos são regionais. Certas distribuições de organismos podem acompanhar distribuições de solos especiais, base de cordilheiras, ou condições hídricas. Outras coincidem com barreiras geográficas, sejam grandes rios, montanhas, ou transições de um clima para outro ou uma formação geológica para outra.

 

Ferramentas úteis para uma análise florística

Análises da flora de um país, estado, bacia hidrográfica, unidade de conservação, etc., tem como peça fundamental a existência de uma testemunha da existência de determinada espécie em determinado local. Para testemunhar essa ocorrência, pequenos fragmentos de plantas com flor e ou fruto são coletados, processados e incorporados em um herbário (veja box). As amostras permitem documentar a ocorrência das espécies, e também são a base para a descrição e nominação de uma nova espécie pelos especialistas.

 

Uma lista com os nomes de todas as espécies coletadas em uma dada região, como por exemplo a bacia do alto Juruá, comparada com listas produzidas para outras regiões, é um procedimento básico para se investigar o quanto a composição florística de um local é similar à composição florística de outras regiões, e investigar ainda a existência de endemismo. Quando não se dispõe de listas para comparação da ocorrência e distribuição de espécies e da similaridade entre floras, o resgate minucioso das informações sobre a localidade onde as espécies foram coletadas, é feita a partir da consulta aos rótulos das amostras botânicas no herbário, e por meio de publicações relacionadas.

 

História botânica da bacia do alto Juruá

O primeiro botânico a realizar coletas na bacia do alto Juruá foi o alemão Ernest H. G. Ule, as quais se constituem as primeiras coletas registradas para o Estado do Acre. Entre os meses de abril de 1901 e janeiro de 1902, quando iniciou seus trabalhos nas proximidades do rio Tejo e Juruá-mirim, Ule fez coletas de cerca de 500 plantas, e muitas delas novas para a ciência.

Após Ule, somente em 1966 o alto Juruá foi visitado por um botânico novamente. G. T. Prance coletou nas proximidades de Cruzeiro do Sul e parte inicial do rio Moa. Em 1968, coletou nas proximidades de Tarauacá, estrada para Feijó, e rios Tarauacá e Muru e, juntamente com P. J. M. Maas em 1971, retornou à região de Cruzeiro do Sul, desta vez alcançando a Serra do Moa. Este foi um dos períodos mais produtivos da história botânica no Acre, quando foi coletado mais de 1/3 de todas as coletas já realizadas no Estado.

A década de 70, foi marcada pelo surgimento da primeira base de dados científicos relacionados à vegetação da Amazônia, incluindo Alto Juruá, cuja origem está relacionada aos estudos desenvolvidos pelo projetos RADAM e RADAMBRASIL, promovidos pelo Ministério das Minas e Energia, com fins de prospecção da riqueza madeireira e do subsolo da região. As informações geradas foram sintetizadas em mapas na escala 1:1.000.000 e constituem o mais amplo estudo já realizado na Amazônia. Infelizmente a informação botânica agregada é frágil, em decorrência da baixa quantidade de coletas efetuadas, da lacuna em termos de determinação das espécimes por especialistas e, apresenta equívocos na interpretação das imagens de radar e, conseqüentemente, na classificação dos alguns tipos de vegetação.

No final de 1977 iniciaram-se as atividades de campo de um ambicioso projeto de levantamento florístico, o Projeto Flora Amazônica, desenvolvido por quase dez anos pelos governos brasileiro e americano, envolvendo a participação de diversos pesquisadores nacionais e estrangeiros. Das 25 expedições realizadas em toda Amazônia, o Acre foi contemplado com três. Durante os meses de setembro e outubro de 1984, uma equipe coordenada por D. G. Campbell e C. A. Cid Ferreira, coletou 755 plantas na bacia do alto Juruá, na circunvizinhança de Cruzeiro do Sul, Rio Moa e Serra do Divisor.

De 1992 até o presente momento, por meio do projeto "Florística e botânica econômica do Acre", mantido pelo convênio UFAC/NYBG, várias coletas tem sido realizadas no Estado, incluindo aquelas realizadas nos Rios Tarauacá, Muru, Juruá, Moa e outros que formam a bacia do alto Juruá, por A. J. Henderson, D. Daly, C.A Cid Ferreira, E. Ferreira, M. Silveira, C. Ehringhaus, D. Costa e L.C. Ming.

Em 1996, com o objetivo de gerar informações através de avaliação ecológica rápida, diversas coletas assim como descrições dos principais tipos de floresta foram feitas na região do PNSD, destacando-se os Rios Moa, Juruá, Juruá-mirim, Ouro Preto, Minas e Paratari, afluentes da margem esquerda do Juruá.

 

Generalidades

Pouco mais de 6.000 coletas botânicas são registradas para a bacia do alto Juruá, o que equivale a pouco mais de 50% de todas as coletas já realizadas no Acre, sendo a região mais coletada do Estado. Muitas amostras ainda estão por ser identificadas e existem problemas de determinações não muito bem resolvidos pelos especialistas; há casos em que diferentes nomes estão sendo utilizados para as mesmas espécies. Existem várias espécies para serem identificadas, cujos grupos a que pertencem carecem de especialistas. Em outros casos as determinações são prejudicadas pela limitada quantidade de material coletado. É comum o especialista dispor de apenas uma amostra para proceder a determinação, ou em alguns casos, a descrição de uma nova espécie.

Apesar das limitações, uma primeira aproximação revela para a bacia do alto Juruá, em torno de 2.000 espécies de árvores, arbustos, ervas, cipós, epífitas, fungos, pteridófitas e briófitas (Anexo 1). Arecaceae (palmeiras), Rubiaceae, Leguminosae e Melastomataceae estão entre as famílias mais bem representadas na região, servindo preliminarmente como um indicativo do tipo de flora ocorrente.

Em 1995, quando foi realizada uma primeira análise das informações disponíveis no banco de dados da flora acreana, a região do alto Juruá estava representada em média, apenas por 1 planta coletada em cada 100 km2 da bacia. Com o resgate da história botânica regional e a realização de novas coletas, hoje tem-se praticamente 9 plantas coletadas a cada 100 km2.

A quantidade de coletas por área é relativamente baixa quando comparada com 85 plantas coletadas em 100 km2 para a Amazônia Equatoriana e 30 em 100 km2 para a região do Chocó, na Colômbia. A relação número de espécies/coletas (1 novo registro para o banco de dados em cada 3 coletas), baseada apenas nas espécies formalmente descritas, pode refletir casos de coleta "seletiva", ou seja, evita-se coletar amostras de espécies já conhecidas e, consequentemente, existe pouca repetição de espécies. Comparando esse valor com a relação de 3.102 espécies em 61.000 coletas (1:19) para a Amazônia Equatoriana e 3.866 espécies em 14.232 coletas (1:3,7) para a região do Chocó, a bacia do alto Juruá apresenta uma perspectiva de alteração desta taxa com o acréscimo de coletas.

 

Peculiaridades

De modo geral, pode-se dizer que a maior parte das espécies ocorrentes na região são componentes típicos das florestas neotropicais de terras baixas (até 1.000 m), e compõem uma flora característica da Amazônia Ocidental. Podem ser encontrados elementos relacionados às terras altas com ocorrência entre 1.000-3.000 m de altitude, principalmente aqueles encontrados na Serra do Divisor. No alto das serras, onde há grande possibilidade de ocorrer um tipo de vegetação com distribuição restrita aos afloramentos rochosos, poderão ainda ser encontradas mais espécies novas e endêmicas.

Cada ambiente é uma mixtura de afinidades. As floras da matas de terra firme contêm espécies bem espalhadas nos neotrópicos (muitas espécies amazônicas num sentido geral), muitas outras espécies que são restritas ao sudoeste da Amazônia, e uma pequena proporção de elementos próprios, ou seja, endêmicos. As várzeas da Amazônia tendem a ter uma flora menos peculiar à região, com espécies mais espalhadas. Isso é lógico em vista das ligações desta parte da bacia com o resto do Juruá e do sistema fluvial amazônico. Recentemente zoólogos descobriram diferênças entre as faunas de mamíferos do Baixo e Alto Juruá, principalmente ao nível genético dentro de espécies, pois as várzeas do Alto Juruá são capazes de conter mais peculiaridades do que esperaria-se.

Os ambientes mais "especializados", que esporadicamente ocorrem na bacia do Alto Juruá, como na Amazônia de modo geral, têm mais elementos próprios e afinidades mais distantes. A flora altamente diversa, surpreendente, e rica em recursos úteis, constitui um tesouro para os moradores e um desafio de muitos anos para os botânicos e, aliás, determina em grande medida o caráter da região do Alto Juruá.

O açaí da serra (Euterpe longivaginata) observado na Serra do Moa, embora não seja considerada uma espécie tipicamente andina, também ocorre nas elevações andinas chegando inclusive a América Central. A região é considerada pelos especialistas em palmeiras, como sendo uma dentre aquelas de maior diversidade do grupo. Para a bacia do alto Juruá, registra-se pelo menos 70% do total de espécies referenciadas como ocorrentes na Amazônia Ocidental.

Deve-se ter em mente o fato que o Alto Juruá, assim como o resto do Estado e até o sudoeste da Amazônia de modo geral, continuam a ser fronteiras biológicas, onde novidades, raridades, e ocorrências inesperadas de plantas e animais estão começando a surgir com freqüência, agora que pesquisas biológicas estão aumentando.

Por exemplo, um arbusto epífita e hemi-parasítico com flores alaranjadas pendentes e chamativas, Psittacanthus amazonicus, foi descoberto por Ule em 1901 na boca do Rio Tejo, no Alto Juruá, e somente em 1992 esta espécie foi re-descoberta na mesma localidade. Aristolochia dalyi, um cipó com flores grandes, curvadas e elegantes, foi descrita apenas em 1998, e parece ser restrita ao Alto Juruá, assim como a rara Geonoma acreana (= G. myriantha) uma das palmeiras chamadas "ubim". Eugenia acrensis, uma árvore da mesma família da goiaba, é conhecida apenas através de coleta no Rio Tarauacá e pelo tipo, coletado no Rio Macauã, bacia do Rio Purus. Fittonia albivenis, uma erva rasteira muito delicada com folhas verdes e nervuras brancas, é pobremente coletada e, no herbário do Jardim Botânico de Nova Iorque, existem apenas quatro coletas, duas no Acre, uma no Perú e outra na Amazônia equatoriana, em áreas de solos pobremente drenados.

Restritas quase somente ao Acre são duas pequenas árvores do subosque de terra firme, Guapira uleana, que ocorre pouco fora do Estado em Amazonas, e Erythrochiton trichanthus, conhecida fora do Acre apenas no Parque Nacional de Manu, situado no Departamento limítrofe peruano de Madre de Dios, e a localmente famosa palmeira chamada "cocão", Attalea tessmannii, conhecida apenas do vale do Alto Juruá e do Perú contíguo.

Uma proporção maior de espécies têm distribuições mais amplas mas restritas à Amazônia Ocidental, como a "envira seda", Schoenobiblus peruvianus, árvore encontrada raramente em terra firme em Morona-Santiago no Equador, Loreto e Junín no Perú, e Acre, a Araceae Anthurium croatii, raro em subosques no Perú (Loreto, Junín, e San Martin), Acre, e La Paz na Bolívia. Encephalosphaera lasiandra um arbustinho com lindas inflorescências rosadas é pobremente coletada, mas segue o padrão em exposição, já que a maior parte dos exemplares foram coletados no Acre e Perú.

A distribuição da maior parte da flora de quase qualquer região é muito ampla e não ajuda a definir afinidades. Como exemplos, Pterocarpus ulei, uma das árvores chamadas "pau sangue" por causa da sua resina avermelhada que produz quando cortada, é encontrado em várias partes do norte da América do Sul, enquanto a "samaúma", Ceiba pentandra, ocorre até a América Central e a comum Phytolacca americana ocorre espontâneamente até a zona temperada nos Estados Unidos. Psittacanthus cucullaris um arbusto parasita, está bem distribuido na periferia da Amazônia, chegando até chega até a costa pacífica do Equador.

Espécies, gêneros, e até famílias de plantas podem caracterizar certos ambientes, e assim freqüêntemente podem constituir vínculos essencialmente iguais em regiões distantes, que têm "contato" genêtico através de polinizadores ou dispersores, ou que tinham no passado geológico.

A família das palmeiras, a Arecaceae, constitui uma ferramenta importante em estudos florísticos no Acre, porque é um grupo conspícuo, diverso, abundante, e relativamente bem estudado no Estado. As palmeiras até definem um dos ambientes da região, nos terraços altos. As espécies predominantes nestas florestas de palmeiras, açaí (Euterpe precatoria), jací (Attalea spp.), e ubim (Geonoma spp.) nas áreas mais elevadas, e patoá (Oenocarpus bataua), paxiubinha (Socratea exorrhiza), e burití (Mauritia flexuosa), em áreas mais baixas, ocorrem em outros ambientes mas caracterizam este por causa da sua alta densidade.

O caráter da bacia do alto Juruá difere bastante da bacia do alto Purus, embora ambas sejam afluentes austrais e contíguos do Rio Solimões, e vizinhos no Acre, o segundo menor estado Amazônico brasileiro.

É interessante notar que as plantas também indicam estas diferenças. A Castanha do Brasil por exemplo, pelo fato de não distribuir-se além do noroeste do Rio Iaco, afluente do Purus, não é encontrada espontaneamente na bacia do Juruá. Por sua vez, o Cocão, palmeira com fruto grande e comestível, é conhecido apenas na bacia do alto Juruá e foi encontrado por botânicos pela segunda vez apenas em 1992. Outra espécie que se destaca nessa bacia é o Catuabão, planta arbórea rara pertencente ao antiquíssimo grupo das Cycadales e, conhecida fora do Juruá, apenas nas zonas subandinas do Perú, da Bolívia, e do Equador. O Gramixó, árvore super-valorizada pelo seu uso na construção de embarcações, parece ocorrer apenas no médio e alto Rio Tarauacá, afluente do Juruá; ainda se desconhece o nome científico deste parente da quaresmeira do sul do País, se é que já é uma espécie conhecida pela ciência.

Outras diferenças apresentadas por plantas úteis duas bacias são mais sutís mas assinalam diferenças importantes nos solos. O tabaco por exemplo, que tende a prosperar em solos relativamente férteis, é escasso nos afluentes do Purus mas é uma cultura comum entre as comunidades ribeirinhas da maioria dos afluentes do Juruá. A cidade de Tarauacá é famosa no Acre pelas frutas gigantescas que aparecem no mercado, principalmente os abacaxis. A deliciosa farinha de mandioca vendida no mercado de Cruzeiro do Sul é renomada em toda a Amazônia brasileira, e vendida também em Manaus e Belém.

Percebe-se que o caráter único das plantas do alto Juruá no elevado número de espécies ocorrentes na bacia, cujo nome científico leva ou o nome do rio (juruense, juruana, juruanus, etc) ou o nome do alemão Ule, o pioneiro em coletas botânicas na região. É claro que muitas plantas foram subseqüêntemente descobertas longe do Juruá, mas outras realmente são restritas à bacia.

 

Afinidades andinas

Do ponto de vista florístico, a região mais interessante do Alto Juruá até o momento é a Serra do Moa, onde a flora dos topos dos morros, das encostas e outros ambientes próximos, assinalam afinidades fortes com os Andes. As encostas que beiram o Rio Moa, são bastante escarpadas, às vezes quase verticais e, neste caso formam "canyons" com paredões de até 150 m. O Rio Moa é estreito e conseqüentemente estas encostas criam ambientes relativamente úmidos e frescos (comparado com os outros ambientes no arredor), onde ocorrem elementos florísticos nitidamente andinos.

Nos fundos dos vales, nas encostas das montanhas e nos declives fortes dos rios e igarapés, ocorrem ambientes extremamente úmidos, mais do que o esperado, dada a taxa de precipitação na região, com presença de neblinas matinais nos mêses de junho e julho. Nestes ambientes, encontra-se uma densidade e uma riqueza de bromélias, orquídeas, pteridófitas e outras plantas epífitas bastante mais alta que a grande maioria da Amazônia brasileira.

Os paredões, rochosos e com solos rasos e instáveis, são cobertos por uma vegetação e flora especial que demostra uma alta concentração de elementos andinos. Algumas das espécies parecem ser especializadas a este tipo de ambiente, como a característica Dicranopygium cf. rheithrophilum, Cyclanthaceae que parece uma pequena palmeira. As plantas arborescentes são pouco ramificadas, como a "imbaúba", Cecropia. A "bacabita" como é chamada vulgarmente a Wettinia augusta, é uma espécie de palmeira que ocorre em elevações mais baixas somente nas florestas adjacentes aos andes ou localizadas ao longo de rios cujas nascentes estão nos Andes. Além deste gênero, Aiphanes, Aphandra, Chamaedorea, Chelyocarpus, Dictyocaryum, Iriartea e Phytelephas, também são citados como sendo tipicamente como sendo subandinas.

Um gênero parente da quinina, Ladenbergia é predominantemente andino, com a excessão de poucas espécies que "descem" até a Amazônia central. A linda Cespedesia spathulacea, com folhas espatuladas e inflorescência com flores amarelas, tem uma distribuição principalmente andina, mas também ocorre em solos arenosos e encostas rochosas na Amazônia ocidental; perto da Serra do Cachimbo no Pará, e no Mato Grosso, com uma ocorrência estranha nos arredores de Manaus. Em paredões sobre igarapés, pode-se encontrar a samambaia arborescente, Cyathea bipinnatifida, fora dali conhecida apenas dos andes desde a Venezuela até a Bolívia, entre 850-200 m de altitude.

No subosque de florestas sobre declives menos fortes, encontra-se a delicada e suculenta erva Monolena primuliflora, cuja distribuição é principalmente andina, mas já foi encontrada nas encostas baixas orientais dos Andes no Equador e no Perú.

O piemonte da Serra consiste em morros mais baixos e dissecados profundamente por igarapés; sobre seus solos arenosos são florestas com o dossel descontínuo e alta densidade de árvores finas. Ocorrem muitas espécies com distribuições amplas dentro e fora do estado, inclusive as frutíferas cajuí (Anacardium giganteum), açaí (Euterpe precatoria), patoá (Jessenia bataua), bacaba (Oenocarpus bacaba), e ariá (Rhigospira quadrangularis).

Nas encostas mais altas dos morros e nos topos, onde ocorre a floresta anã, o chão é coberto de uma camada espessa (até 50 cm) de líter, raízes finas, e musgos. Perto dos topos, em muitos lugares o subosque é dominado por uma bromélia terrestre, que forma populações muito densas e dificulta a caminhada. Outro obstáculo em certos morros é criado por populações densas da samambaia Dicranopteris pectinata. O estrato arborescente de 5-10 m, é dominado relativamente por poucas espécies, entre elas duas ou três espécies de louros (Lauraceae), uma Melastomataceae, e uma ou duas espécies de "joão mole" (Nyctaginaceae).

 

Campinas e outros ambientes sobre areia branca

Entre os ambientes mais interessantes da bacia do Alto Juruá estão aqueles situados sobre areia branca, drenados por águas pretas. Em zonas úmidas na Amazônia, ambientes sobre areia branca ocorrem esporadicamente, com a exceção do Alto Rio Negro, onde predominam. Variam entre vegetação rala, aberta, e quase arbustiva, chamada "campina" no Pará e em Amazonas e "bana" na Venezuela, até formações florestais com alta densidade de árvores finas, chamadas "campinarana" ou "caatinga" no Amazonas e "varillal" em Loreto no Perú. A fisionomia e a composição florística são determinadas principalmente pela pequena profundidade do lençol freático e conseqüêntemente pela drenagem do solo. Por enquanto, os dados botânicos destas zonas são escassos, mas suficientes para um análise preliminar das suas afinidades.

Perto de Mâncio Lima, as poucas áreas mais abertas das chamadas campinas (muitas delas localizadas em ramais de estrada) contêm alguns elementos clássicos conhecidas nas campinas de outras partes da Amazônia, e.g., o líquen Cladonia sobre areia branca exposta, além de freqüêntes ervas dos gêneros Pedicularis e especialmente Xyris, e algumas da família de gramíneas (Poaceae). Nas margens das áreas abertas ocorrem pequenas árvores no gênero Humiria e uma Bombacaceae desconhecida. Uma das plantas mais chamativas das margens é a Remijia ulei, pequena árvore com grandes folhas grandes, largas, e coriáceas, também conhecida nas campinaranas do Alto Rio Negro e campinas do Alto Rio Madeira.

Na campina de Mâncio Lima, existem dois tipos de mata. No primeiro, existe uma densidade alta de árvores finas de uns 5 m de altura, a grande maioria delas uma Araliaceae do gênero Dendropanax. O estrato herbáceo é dominado pela samambaia Danaea oblanceolata e por um Anthurium terrestre, ambos ocorrendo em pequenas elevações ao nível do solo, formadas por suas próprias raízes, o que mantêm as partes aéreas das plantas acima das inundações temporárias durante as chuvas. Recentemente foram encontradas árvores no gênero Mollia, considerada característica de matas inundadas por águas pretas. Uma árvore vistosa chamada Ruizteriana trichantera (Vochysiaceae) tem sido encontrada no Alto Rio Negro, em São Paulo de Olivença no Alto Solimões, em Jenaro Herrera na amazônia peruana central, Guayana venezuelana e ao nordeste de Mâncio Lima, sempre no mesmo tipo de ambiente, floresta de campina, senso acreano.

Em um outro tipo de campina, o dossel é mais alto, uns 8-10 m, com emergentes até uns 15-20 m. Ocorrem as mesmas espécies que encontra-se no primeiro tipo, mas ocorrem também palmeiras arborescentes, ervas da família Marantaceae (gêneros Calathea e Ischnosiphon), além de várias outras espécies de árvores nas famílias Apocynaceae (Himatanthus sp., uma "sucuúba"), Burseraceae (Trattinnickia burserifolia e Protium sp.), Rubiaceae e Lauraceae.

Solos arenosos formam a base de vários dos ambientes nos arredores da Serra do Moa, inclusive as matas de tabuleiro, onde ocorrem plantas com afinidades no Alto Rio Negro e/ou com os Andes. O gênero Rapatea, encontrada nos baixios dos tabuleiros (R. spectabilis e/ou R. muaju), também encontra-se no Alto Rio Negro, assim como na Amazônia ocidental (principalmente no Perú) onde ocorrem solos arenosos sobre um lençol freático superficial. As Rapateaceae também sao características dos Andes e principalmente da Guiana venezuelana, onde mostram um centro de diversidade.

 

Áreas inundáveis e ambientes associados

A composição florística de uma área inundável é determinada principalmente pela altura e duração das alagações. Por isso, embora a diversidade de cada ponto não seja extremamente alta, o conjunto do mosaico de ambientes inundáveis demostra uma complexidade e uma diversidade total impressionante.

Nas margens dos rios, cujos canais mudam com freqüência, a idade dos sedimentos e a estabilidade dos solos também determina a flora, evidenciada nas linhas sucessionais que se formam com diferentes espécies. Nos sedimentos mais jovens e instáveis, encontra-se populações densas das ouranas, os arbustos Salix e Alchornea, atrás dos quais normalmente ocorre populações densas de cana brava (Gynerium) e a arvoreta Tessaria. Em sedimentos menos recentes, mais estáveis, e um pouco mais altos, são encontrados árvores com madeira fraca como imbaúba (Cecropia), taxí da várzea (Triplaris), e Margaritaria, assim como a ucuúba (Virola), cuja madeira é super-explorado em várias várzeas na Amazônia.

Nos ambientes chamados baixios, que ocorrem atrás de barrancos mas que são atingidos pelas enchentes, ocorrem populações densas das palmeiras marajá (Bactris) e joarí (Astrocaryum joari), assim como uma ou mais espécies de bambus arborescentes (Guadua). Nos pontos menos baixos destes ambientes, encontra-se ucuúba da várzea (Virola surinamensis), a ucuúba punã (Iryanthera juruensis), e algumas palmeiras principais, inclusive pelo menos duas espécies de jací (Attalea) e a paxiubão (Iriartea deltoidea). Outra palmeira que ocorre no Brasil somente arredor da Serra do Moa, é a chamada "pifaia", Dictyocaryum ptarianum, cuja distribuição principal se dá em florestas de altitude como os tepuis da Venezuela, ocorrendo também em baixios.

Nos salões parece ocorrer uma flora própria se não extremamente rica, consistindo principalmente em ervas baixas, inclusive samambaias, musgos, hepáticas, e angiospermas nas famílias Cyperaceae, Poaceae, Lamiaceae, Asteraceae, e Melastomataceae, estas últimas normalmente suculentas. Nas pequenas grutas criadas pelas cachoeirinhas, encontra-se alta densidade de musgos e samambaias, e diversas Piperaceae. Nas partes inundáveis dos barrancos, é comum encontrar muitos buracos feitos por um molusco alongada de até 25 cm de comprimento, que parece um mexilhão.

 

Importância para conservação

A grande quantidade de espécies vegetais e animais encontradas na bacia do Alto Juruá, as interferências e consequências das mudanças ocorridas com o clima no passado sobre a flora e fauna regionais, a presença de grandes lacunas de informações e ainda, o parco conhecimento sobre os usos das plantas, ressaltam a importância da conservação na bacia.

A nível mundial, tem-se pelo menos 1,5 milhão de espécies animais e vegetais formalmente descritas e entre 10 e 50 milhões ainda por serem conhecidas, considerando os extremos entre as estimativas atuais. O significado desses cifras tem que ser percebidas por todos nós, tem que nos impressionar, para podermos também entender o que significa cerca de 17.500 espécies caminhando anualmente rumo a extinção.

As potencialidades da flora regional e seu uso pelas comunidades tradicionais, somente agora estão sendo descobertas. Há bulbos, raízes, folhas, frutos, sementes e castanhas importantes na alimentação; uma enorme variedade de madeiras utilizadas na construção de moradias e embarcações; inúmeras plantas que são fonte de remédios para a população local; fibras e cipós usados na confecção de utensílios, e certamente muito mais.

No entanto a origem dessas informações, comumente concentrada nas pessoas idosas, com mais experiência de vida na floresta, cada dia torna-se mais rara e, muitos jovens, potenciais propagadores e mantenedores dessas informações, tem deixado o campo em troca de "melhores" oportunidades nas cidades.

Ao mesmo tempo, a ausência de políticas de desenvolvimento regional, que garanta a estabilidade e uma boa qualidade de vida às comunidades tradicionais, influencia diretamente as severas mudanças no tipo de uso da floresta.

Para podermos compreender os porques de tão grande diversidade e seu papel no funcionamento do sistema (ecossistema), conservar e preservar áreas privilegiadas por conter tal riqueza, como a bacia do Alto Juruá, é imprescindível. Gerar informações básicas que visem a conservação da bacia do Alto Juruá, aliadas a uma proposta de desenvolvimento com os mínimos efeitos sobre essa riqueza biológica e cultural, é um desafio.


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